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Sister Act Jr. - um clássico reinventado pelas vozes de uma nova geração

  • há 17 horas
  • 4 min de leitura


Primeiro vieram as gargalhadas. Muitas. Depois, quase sem se dar por isso, instalou-se o silêncio. Não porque a música tivesse terminado, mas porque Sister Act Jr. deixava de ser apenas uma comédia musical para falar do tempo, dos medos e da forma como escolhemos viver em sociedade. E foi nesse equilíbrio, entre riso e reflexão, que assentaram as quatro apresentações da classe de Teatro Musical do Conservatório de Música e Artes do Dão, entre 10 e 12 de julho, na Casa da Cultura de Santa Comba Dão.


Inspirado no conhecido filme Do Cabaré ao Convento, que mais tarde deu origem a um musical da Broadway, Sister Act Jr. trouxe ao palco muito mais do que humor, música e dança. Na história de Deloris Van Cartier foi encontrado um ponto de partida para dialogar com as inquietações do presente.


A história desta cantora irreverente e sonhadora mantém-se fiel ao original. Depois de testemunhar um crime cometido pelo namorado gangster, Deloris encontra num convento um esconderijo improvável. O choque entre a sua personalidade exuberante e a disciplina das freiras cria alguns dos momentos mais divertidos do espetáculo, mas também abre caminho a uma transformação inesperada. Aquela mulher que chega como um elemento estranho acaba por transformar o coro, aproximar pessoas que pareciam viver em mundos diferentes e descobrir, ela própria, o significado da amizade e da entreajuda.


Nesta produção, porém, Deloris encontra uma nova interlocutora. Através de uma história paralela escrita por nove jovens da classe de Teatro Musical, que assumem o papel de «contadores de histórias», a narrativa atravessa quase meio século para chegar aos dias de hoje. Em pequenos momentos distribuídos ao longo do espetáculo, um grupo de jovens, entre os quais se encontra a neta de Deloris, vai descobrindo a história da avó enquanto dá voz às inquietações da sua geração, estabelecendo um diálogo inesperado entre o final da década de 1970 - uma época ainda marcada pela afirmação das mulheres e pela luta pelos direitos civis - e um presente onde persistem outras formas de pressão, isolamento e falta de empatia.


Enquanto Deloris enfrenta um mundo onde a violência, o preconceito e a desigualdade procuram limitar a sua liberdade, os jovens refletem sobre a pressão dos pares, o receio de falhar, a cautela com que vivem as relações e a dificuldade em cultivar laços verdadeiros num tempo em que a rapidez e o julgamento parecem ocupar demasiado espaço. Separadas por quase meio século, as duas histórias acabam por fazer as mesmas perguntas: como encontrar o nosso lugar, como permanecer fiéis àquilo em que acreditamos e como construir uma sociedade mais humana.


Tudo isto acontece sem que o espetáculo perca a sua leveza. A comicidade é um dos seus maiores trunfos. O público entra rapidamente no jogo, rendendo-se ao ritmo dos diálogos, aos equívocos, às entradas inesperadas das personagens e a um humor que marcou as quatro sessões.


Também os antagonistas encontram o tom certo entre a caricatura e o perigo. Curtis, os seus cúmplices e o inspetor "Suadinho" surgem à imagem dos filmes policiais americanos, sem nunca deixarem de cumprir a sua função dramática. Da mesma forma, as freiras começam por parecer encaixar nos lugares-comuns da rigidez conventual, apenas para revelarem, pouco a pouco, que ninguém cabe totalmente dentro de um estereótipo.


Muitos dos jovens atores assumiram várias personagens ao longo do espetáculo, mudando de registo com uma naturalidade surpreendente. Num instante eram freiras; logo depois, gangsters, agentes da polícia, clientes do bar ou outras figuras que davam vida à narrativa. Essas mudanças rápidas nunca quebraram o ritmo da ação e evidenciaram a versatilidade de um elenco muito jovem.


Também a personagem de Deloris nunca teve um único rosto. Ao longo das apresentações, quatro atrizes deram vida à protagonista, cada uma com a sua própria leitura da personagem. Todas lhe trouxeram energia e sensibilidade, com a passagem de testemunho a fazer-se numa fluidez notável, permitindo que o público reconhecesse sempre a mesma Deloris - irreverente, determinada e incapaz de deixar de ser quem é. As emblemáticas botas verdes, presentes ao longo da narrativa, reforçaram essa identidade e tornaram-se um dos elementos visuais mais marcantes do espetáculo.


A componente visual acompanhou permanentemente essa dinâmica. O ambiente austero do convento contrastou com a explosão de cor e de música dos anos 70, enquanto as projeções gráficas transportavam a ação entre diferentes cenários, enriquecendo a narrativa.


Mas foi o elenco que deu verdadeiro sentido à história. Entre os grandes números musicais, os momentos de humor e as mudanças constantes de personagem, revelou um trabalho de entrega e cumplicidade que fez esquecer a idade.


Já perto do final, a música deu lugar às palavras. Os jovens regressaram ao palco para refletir sobre o tempo, as mudanças e as memórias que levamos connosco. "Envelhecer não é perder tempo; é transformar o tempo em memórias", ouviu-se na sala. A frase encerrava a história paralela, mas parecia falar também de todos aqueles que, ao longo de um ano de trabalho, encontraram no teatro um espaço para crescer, criar e descobrir quem são. As despedidas das alunas finalistas reforçaram a emoção desse momento. Entre agradecimentos e recordações, ficou evidente que aquele palco é "casa".


No final, o aplauso prolongado confirmou aquilo que o público já tinha sentido ao longo da noite. Sister Act Jr. fez rir, emocionou e divertiu, mas encontrou também uma forma muito própria de revisitar uma história conhecida. Sem perder a energia que a caracteriza, esta adaptação mostrou que um clássico pode continuar a dialogar com o presente quando encontra novas vozes para o contar. E, durante quatro sessões, foram essas vozes - jovens, genuínas e cheias de futuro - que fizeram da Casa da Cultura um lugar de encontro, de memória e de comunidade.


A apresentação do Musical Sister Act Jr. foi o culminar de uma residência artística que envolveu dezenas de jovens de vários concelhos da região. A encenação ficou a cargo de Rafael Barreto, a direção musical e vocal de Artur Guimarães, a coreografia de Catarina Alves e a cenografia de Carlos Neves. Joana Machado assinou os figurinos e Marco Bento o desenho de luz.


O espetáculo integrou-se na programação da Casa da Cultura 2024-2027 | Rede de Teatros e Cineteatros Portugueses, promovida pelo Município em parceria com o Conservatório de Música e Artes do Dão e com financiamento da Direção-Geral das Artes.



 
 
 

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